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20/02/2012

Eros & Psique - Fernando Pessoa


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada,quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado, Vencer o mal e o bem...
Antes que, já libertado, 
Deixasse o caminho errado 
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida, se espera, dormindo espera...
Sonha em morte a sua vida.
E orna-lhe a fronte esquecida, verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado, sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado, ele dela é ignorado, ela para ele é ninguém. 
Mas cada um cumpre o destino...
Ela dormindo encantada, ele buscando-a sem tino...
Pelo processo divino que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro tudo pela estrada fora...
E falso, ele vem seguro,  vencendo estrada e muro,
chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera, a cabeça, em maresia, ergue a mão, e encontra hera.
E vê que ele mesmo era...
A Princesa que dormia.
 Fernando Pessoa
E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e

aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.

(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio
Na Ordem Templária De Portugal)

29/07/2011

Poema dos Dons


Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite 
esta declaração da maestria. 
de Deus, que com magnífica ironia 
deu-me a um só tempo os livros e a noite. 

Da cidade de livros tornou donos 

estes olhos sem luz, que só concedem 
em ler entre as bibliotecas dos sonhos 
insensatos parágrafos que cedem 

as alvas a seu afã. Em vão o dia 

prodiga-lhes seus livros infinitos, 
árduos como os árduos manuscritos 
que pereceram em Alexandria. 
De fome e de sede (narra uma história grega) 
morre um rei entre fontes e jardins; 
eu fatigo sem rumo os confins 
dessa alta e funda biblioteca cega. 

Enciclopédias, atlas, o Oriente 

e o Ocidente, centúrias, dinastias, 
símbolos, cosmos e cosmogonias 
brindam as paredes, mas inutilmente. 

Em minha sombra, o oco breu com desvelo 

investigo, o báculo indeciso, 
eu, que me figurava o paraíso 
tendo uma biblioteca por modelo. 

Algo, que por certo não se vislumbra 

no termo acaso, rege estas coisas; 
outro já recebeu em outras nebulosas 
tardes os muitos livros e a penumbra. 

Ao errar pelas lentas galerias 

sinto às vezes com vago horror sagrado 
que sou o outro, o morto, habituado 
aos mesmos passos e aos mesmos dias. 

Qual de nós dois escreve este poema 

de uma só sombra e de um plural? 
O nome que assina é essencial, 
se é indiviso e uno este anátema? 

Groussac ou Borges, olho este querido 

mundo que se deforma e que se apaga 
numa empalidecida cinza vaga 
que se parece ao sonho e ao olvido.


Poema de Jorge Luis Borges
Trad. de Josely Vianna Baptista.
São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


Um Momento de Poesia, Música e Reflexão!

13/06/2011

Fernando Pessoa - Aniversário

O português Fernando António Nogueira Pessoa, mais conhecido como Fernando Pessoa, completaria 123 anos neste 13 de junho de 2011.
Este vídeo foi produzido em tributo a este grande e consagrado poeta.Ícone da literatura universal!

PRODUÇÃO E NARRAÇÃO: Alba Simões
Aniversário
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos) 

10/08/2010

Dois Meninos


 Dois meninos um conto de Clarice Lispector 
Narração: Aracy Balabanian
Créditos VídeoAninejf

09/08/2010

Perto do Coração Selvagem

"(...)Ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo". 

Clarice Lispector Perto do Coração Selvagem
Créditos Vídeo:ESTEEHMEU

01/06/2010

Água Viva Clarice Lispector

 Sonhei que te escrevia um largo majestoso e era mais verdade 
ainda do que te escrevo: era sem medo. Esqueci-me do que no 
sonho escrevi, tudo voltou para o nada, voltou para a Força do que 
Existe e que se chama às vezes Deus. 
Tudo acaba mas o que te escrevo continua. O que é bom,  muito bom.
O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas. 
Hoje é sábado e é feito do mais puro ar,  apenas ar.
Falo- te como exercício profundo de mim. O que quero agora 
escrever? Quero alguma coisa tranqüila e sem modas.
Alguma coisa como a lembrança de um monumento que parece mais alto 
porque é lembrança. Mas quero de passagem ter realmente tocado 
no monumento. Vou parar porque é sábado. Continua sábado. 
Aquilo que ainda vai ser depois - é agora. Agora é o domínio 
de agora. E enquanto dura a improvisão eu nasço. 
E eis que depois de uma tarde de "quem sou eu" e de acordar 
à uma hora da madrugada ainda em desespero -  eis que às 
três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao 
encontro de mim. Calma,  alegre,  plenitude sem fulminação.
Simplesmente eu sou eu. e você é você. É vasto, vai durar. 
O que te escrevo é um "isto". Não vai parar: continua. 
Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas.
É o que está certo. 
O que te escrevo continua e estou enfeiçada.

Último Capítulo do Livro: Água Viva de Clarice Lispector
     Produção e Narração: Alba Simões