Sonhei que te escrevia um largo majestoso e era mais verdade
ainda do que te escrevo: era sem medo. Esqueci-me do que no
sonho escrevi, tudo voltou para o nada, voltou para a Força do que
Existe e que se chama às vezes Deus.
Tudo acaba mas o que te escrevo continua. O que é bom, muito bom.
O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.
Hoje é sábado e é feito do mais puro ar, apenas ar.
Falo- te como exercício profundo de mim. O que quero agora
escrever? Quero alguma coisa tranqüila e sem modas.
Alguma coisa como a lembrança de um monumento que parece mais alto
porque é lembrança. Mas quero de passagem ter realmente tocado
no monumento. Vou parar porque é sábado. Continua sábado.
Aquilo que ainda vai ser depois - é agora. Agora é o domínio
de agora. E enquanto dura a improvisão eu nasço.
E eis que depois de uma tarde de "quem sou eu" e de acordar
à uma hora da madrugada ainda em desespero - eis que às
três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao
encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação.
Simplesmente eu sou eu. e você é você. É vasto, vai durar.
O que te escrevo é um "isto". Não vai parar: continua.
Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas.
É o que está certo.
O que te escrevo continua e estou enfeiçada.
Último Capítulo do Livro: Água Viva de Clarice Lispector
Produção e Narração: Alba Simões