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31/10/2012

Clandestino

Vou falar por enigmas
apagar as pistas visíveis
cair na clandestinidade.
descer de pára-quedas
camuflado
numa clareira clandestina
da mata atlântica.

Já não me habita mais nenhuma utopia
animal em extinção,
quero praticar poesia
- a menos culpada de todas as ocupações.

Já não me habita mais nenhuma utopia.
meu desejo pragmático-radical
é o estabelecimento de uma reserva de ecologia
- quem aqui diz estabelecimento diz escavação -
que arrancará a erva daninha do sentido ao pé-da-letra,
capinará o cansanção dos positivismos e literalismos,
inseminará e disseminará metáforas,
cuidará da polinização cruzada,
cultivará hibridismos bolados pela engenharia genética,
adubará a dosagem adequada de calcário,
utilizará o composto orgânico
excrementado
pelas minhocas fornicadoras cegas
e propagará plantas por alporque
ou por enxertia.

Já não me habita mais nenhuma utopia.

sem recorrer
ao carro alegórico:
olhar o que é,
como é, por natureza, indefinido.
quero porque quero o êxtase,
uma réplica reversora da república de Platão
agora expulsando para sempre a não-poesia
da metamorfose do mundo.

Já ão me habita mais nenhuma utopia.
bico do beija-flor suga glicose.
no camarão
em flor.
(Texto: Waly Salomão )
Ilustração: Metamorphosis: Carol Carter

22/02/2011

Este é o Prólogo


Deixaria neste livro 
toda minha alma. 
Este livro que viu 
as paisagens comigo 
e viveu horas santas. 

Que compaixão dos livros 
que nos enchem as mãos 
de rosas e de estrelas 
e lentamente passam! 

Que tristeza tão funda 
é mirar os retábulos 
de dores e de penas 
que um coração levanta! 

Ver passar os espectros 
de vidas que se apagam, 
ver o homem despido 
em Pégaso sem asas. 

Ver a vida e a morte, 
a síntese do mundo, 
que em espaços profundos 
se miram e se abraçam. 

Um livro de poemas 
é o outono morto: 
os versos são as folhas 
negras em terras brancas, 

e a voz que os lê 
é o sopro do vento 
que lhes mete nos peitos 
— entranháveis distâncias. — 

O poeta é uma árvore 
com frutos de tristeza 
e com folhas murchadas 
de chorar o que ama. 

O poeta é o médium 
da Natureza-mãe 
que explica sua grandeza 
por meio das palavras. 

O poeta compreende 
todo o incompreensível, 
e as coisas que se odeiam, 
ele, amigas as chama. 

Sabe ele que as veredas 
são todas impossíveis 
e por isso de noite 
vai por elas com calma. 

Nos livros seus de versos, 
entre rosas de sangue, 
vão passando as tristonhas 
e eternas caravanas, 

que fizeram ao poeta 
quando chora nas tardes, 
rodeado e cingido 
por seus próprios fantasmas. 

Poesia, amargura, 
mel celeste que mana 
de um favo invisível 
que as almas fabricam. 

Poesia, o impossível 
feito possível. Harpa 
que tem em vez de cordas 
chamas e corações. 

Poesia é a vida 
que cruzamos com ânsia, 
esperando o que leva 
nossa barca sem rumo. 

Livros doces de versos 
são os astros que passam 
pelo silêncio mudo 
para o reino do Nada, 
escrevendo no céu 
as estrofes de prata. 

Oh! que penas tão fundas 
e nunca aliviadas, 
as vozes dolorosas 
que os poetas cantam! 

Deixaria no livro 
neste toda a minha alma... 

Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos' 
Tradução de Oscar Mendes