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02/01/2011

Se os Tubarões Fossem Homens



“Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos.
Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.
Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não morressem antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.
Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.
Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista.
E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.
As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos.
Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças.
Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.
Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.
A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.
Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar.
E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante.
Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.”
Bertold Brecht

29/06/2010

A exceção e a regra Bertold Brecht

Em diversos momentos da formação social da humanidade passamos por crises que causaram a detração do direito primordial do homem à democracia. Nesses momentos, poucos realmente se levantaram contra essa opressão e fizeram de seu pensamento, uma luz de esperança para aqueles que necessitavam. É nesse ponto em que a vida e obra de Bertold Brecht expressa toda sua riqueza e importância para nossa sociedade moderna e para suas futuras gerações. O dramaturgo foi um militante e intelectual que dirigiu todos seus esforços para a construção da liberdade de pensamento e manutenção de uma sociedade mais justa, em defesa dos oprimidos.
Discutir a vida e obra de Bertold Brecht é fazer uma reflexão incontestavelmente humana e ácida sobre uma sociedade moderna e indiferente. Somos colocados diante de uma obra que nos leva a uma posição questionadora dessa realidadeconcreta em que vivemos. A obra do dramaturgo mundialmente reconhecido reflete a luta contínua e inconfundível do ser humano sensibilizado por uma sociedade verdadeiramente livre.
A obra de Brecht entrelaça-se e é influenciada radicalmente pela vida conturbada levou em seu tempo. Nascido em 10 de Fevereiro de 1898, em Augsburgo na Alemanha, Bertold Brecht logo entraria em contado com os fatos que certamente o tornariam um defensor das causas humanas: a Primeira e Segunda Guerra Mundial. 
As influências desses tempos sombrios na vida de Brecht não são uma casualidade qualquer. O dramaturgo serviu como enfermeiro na primeira guerra mundial, e com essa experiência teve contato com o que pior a guerra pode oferecer: a  fome, a repressão e os massacres. Estas experiências afetaram profundamente seu estilo livre  de denunciar as atrocidades cometidas pela humanidade.
A forma militante de escrever e criticar a opressão sobre sociedade daqual fazia parte, juntamente com a sua conversão ao socialismo, provocou uma intensa perseguição do regime nazista. Tal repressão levou o autor apassar diversas dificuldades de ordem financeira e de segurança que posteriormente levou ao exílio.